O presidente nacional do Partido Liberal (PL), Valdemar Costa Neto, criticou nesta quinta-feira (29) a carta divulgada pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) após sua chegada aos Estados Unidos. O documento, que inicialmente apresentava o parlamentar como o verdadeiro presidente eleito do Brasil, provocou desconforto entre integrantes da legenda e aliados políticos.
A declaração foi feita quando Valdemar chegava ao condomínio onde o ex-presidente Jair Bolsonaro cumpre prisão domiciliar, para uma visita autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
Questionado por jornalistas sobre o comunicado divulgado pelo senador, Valdemar respondeu:
“Não gostei, não gostei.”
O dirigente também indicou que pretendia conversar com Jair Bolsonaro sobre a situação política do partido e os acontecimentos envolvendo seu filho.
A manifestação ocorre um dia depois de Flávio desembarcar em Miami, na Flórida, acompanhado da esposa e das duas filhas, contrariando uma determinação judicial que o proibia de deixar o território brasileiro.
Carta de Flávio provocou reação dentro do PL
A insatisfação de Valdemar está relacionada ao conteúdo do comunicado publicado por Flávio Bolsonaro na quarta-feira (28).
Na primeira versão, o senador se apresentou como o verdadeiro presidente eleito do Brasil, apesar de ter sido derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno das eleições presidenciais, realizado no domingo (25).
Após a repercussão, a publicação foi retirada e substituída por uma nova versão, na qual Flávio passou a utilizar a expressão “líder do Brasil”.
Apesar da alteração, o parlamentar manteve acusações de fraude eleitoral sem apresentar provas e anunciou que pretende liderar a oposição brasileira a partir dos Estados Unidos.
A posição contrasta com a adotada oficialmente pelo PL, que reconheceu o resultado proclamado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), embora tenha solicitado esclarecimentos à Justiça Eleitoral.
Segundo informações divulgadas pelo UOL, dirigentes da legenda demonstraram preocupação com os efeitos políticos da carta e da saída do senador do país.
Viagem aos Estados Unidos surpreendeu aliados
A decisão de Flávio Bolsonaro de deixar o Brasil também provocou questionamentos entre integrantes do próprio grupo político.
O senador Rogério Marinho (PL-RN), que coordenou sua campanha presidencial, afirmou que o núcleo político da candidatura não havia sido informado antecipadamente sobre a viagem.
A saída ocorreu depois de o ministro Alexandre de Moraes determinar que Flávio entregasse seus passaportes à Polícia Federal e permanecesse no Brasil, no âmbito de uma investigação sobre suspeitas de lavagem de dinheiro.
Flávio nega irregularidades e sustenta que decidiu viajar para proteger sua família e continuar sua atuação política.
O parlamentar atravessou a fronteira com a Argentina na noite de terça-feira (27), seguiu em uma aeronave particular com escala no Equador e desembarcou na região de Miami na manhã seguinte.
A viagem foi acompanhada por questionamentos sobre o descumprimento das medidas impostas pelo STF.
Jair Bolsonaro não teria sido informado antecipadamente
A falta de comunicação sobre a viagem também se tornou um dos pontos de tensão entre integrantes do grupo político.
Segundo a informação apresentada pelo g1, Flávio Bolsonaro não teria avisado previamente o pai, Jair Bolsonaro, de que deixaria o Brasil.
A informação se soma ao relato de Rogério Marinho, que declarou não ter sido comunicado antecipadamente sobre a decisão do senador.
Não há, porém, confirmação pública independente sobre quando Jair Bolsonaro tomou conhecimento da viagem do filho.
A visita de Valdemar ao ex-presidente ocorre nesse contexto. O dirigente afirmou que pretendia atualizar Bolsonaro sobre a situação política da legenda.
Valdemar busca reorganizar o partido após as eleições
A reunião entre Valdemar Costa Neto e Jair Bolsonaro acontece quatro dias depois do segundo turno das eleições presidenciais.
Lula foi reeleito com aproximadamente 64,2 milhões de votos, equivalentes a 51,79% dos votos válidos. Flávio recebeu cerca de 59,8 milhões de votos, ou 48,21%.
O resultado foi proclamado pelo TSE e reconhecido oficialmente pelo PL.
Após a divulgação da carta, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), defendeu o respeito ao resultado das urnas. Outras legendas, entre elas União Brasil, PSD, PSDB e MDB, também se manifestaram em defesa do processo eleitoral.
A posição dessas lideranças evidencia divergências sobre a estratégia que a oposição deverá adotar depois da eleição.
Partido enfrenta divergências sobre os próximos passos
A saída de Flávio Bolsonaro e a divulgação do comunicado ocorrem em um momento de reorganização das forças políticas após a eleição presidencial.
De acordo com informações publicadas pelo UOL, dirigentes do PL avaliam que o partido precisa preservar sua atuação institucional e evitar que as declarações do senador comprometam suas articulações políticas.
Flávio, por sua vez, afirmou na carta que pretende continuar liderando a oposição a partir dos Estados Unidos.
O senador também anunciou que pretende divulgar uma estratégia de mobilização de seus apoiadores nos próximos dias.
A posição de Valdemar Costa Neto indica que a iniciativa não recebeu aprovação unânime dentro do partido.
As próximas decisões da direção nacional do PL deverão esclarecer como a legenda pretende conciliar sua posição oficial de reconhecimento do resultado eleitoral com a atuação política de Flávio Bolsonaro no exterior.
