Ex-prefeito de Belford Roxo e aliado político de Flávio Bolsonaro está entre os alvos da Operação Unha e Carne, que investiga suspeitas de movimentações bilionárias por meio de postos de combustíveis. Ex-chefe da Polícia Civil também foi preso.
A Polícia Federal prendeu nesta quinta-feira (15) Márcio Canella (União Brasil), ex-prefeito de Belford Roxo e deputado estadual eleito pelo Rio de Janeiro. A prisão ocorreu durante uma nova fase da Operação Unha e Carne, que investiga suspeitas de lavagem de dinheiro, corrupção e participação de agentes públicos em uma organização criminosa.
Canella foi o segundo candidato a deputado estadual mais votado do Rio nas eleições de 2026, com 197.178 votos. Ele também ocupa a presidência estadual do União Brasil.
Entre os presos está Marcus Vinicius Amim Fernandes, ex-chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro e ex-presidente do Departamento Estadual de Trânsito (Detran-RJ). Outros quatro policiais civis também foram alvo de mandados de prisão.
A operação foi autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e faz parte de uma investigação sobre uma rede de empresas suspeitas de movimentar recursos de origem ilícita.
Investigação aponta movimentação de R$ 7,6 bilhões
Segundo a Polícia Federal, a organização criminosa investigada teria utilizado uma rede de postos de combustíveis na Região Metropolitana do Rio de Janeiro para movimentar e ocultar dinheiro.
Relatórios de inteligência financeira do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) identificaram movimentações superiores a R$ 7,6 bilhões ao longo de seis anos.
A Justiça determinou a suspensão das atividades econômicas de 112 empresas, entre elas 96 postos de combustíveis suspeitos de integrar a estrutura financeira investigada.
Também foram autorizadas medidas de bloqueio de bens e valores relacionados aos investigados.
A PF apura se agentes públicos teriam utilizado seus cargos ou sua influência para favorecer o funcionamento do esquema.
Ex-chefe da Polícia Civil e outros agentes estão entre os presos
Além de Márcio Canella e Marcus Amim, a operação atingiu policiais civis suspeitos de participar da estrutura investigada.
Entre os nomes divulgados estão Pablo Jukia Félix Ferreira, conhecido como Pablo Russo, José Carlos Alves de Souza Júnior e os irmãos Christiano e Giovanni Gaspar Fernandes.
De acordo com a investigação, alguns dos agentes teriam atuado na administração de empresas e na movimentação de recursos suspeitos.
Os investigadores também apuram possíveis vazamentos de informações sigilosas e a utilização de estruturas institucionais para proteger atividades ilegais.
As acusações ainda serão analisadas pela Justiça, e as prisões preventivas não representam condenação dos investigados.
Mandados foram cumpridos em diferentes cidades do Rio
A oitava fase da Operação Unha e Carne mobilizou agentes federais para o cumprimento de seis mandados de prisão preventiva e 16 mandados de busca e apreensão.
As diligências ocorreram em diferentes municípios fluminenses, incluindo Rio de Janeiro, Niterói, Angra dos Reis, Petrópolis, Armação dos Búzios, Nova Iguaçu e São Gonçalo.
A Corregedoria da Polícia Civil acompanhou as medidas relacionadas aos integrantes da corporação.
Entre os crimes investigados estão organização criminosa, lavagem de dinheiro, corrupção, violação de sigilo funcional e possíveis irregularidades no comércio de combustíveis.
Márcio Canella já havia sido preso em julho
Canella já havia sido detido em julho de 2026, durante uma fase anterior da Operação Unha e Carne.
Na ocasião, policiais federais encontraram um fuzil de uso restrito em um veículo utilizado pelo político. Ele foi preso em flagrante e posteriormente liberado por decisão judicial.
A defesa afirmou que a arma era legalizada e pertencia a um policial militar responsável pela segurança de Canella.
O episódio ocorreu quando o político se preparava para disputar uma vaga no Senado Federal.
Após a prisão, ele desistiu da candidatura ao Senado e decidiu concorrer novamente à Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.
Ligação política com Flávio Bolsonaro e a família do ex-presidente
Márcio Canella mantinha uma aliança política com o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL), que apoiava sua pré-candidatura ao Senado pelo Rio de Janeiro.
A articulação previa Rogéria Bolsonaro, mãe de Flávio e ex-mulher do ex-presidente Jair Bolsonaro, como primeira suplente na chapa de Canella.
Em julho, Canella participou de um evento ao lado de Flávio Bolsonaro, Rogéria Bolsonaro e Douglas Ruas, eleito governador do Rio de Janeiro. O encontro foi registrado em uma fotografia publicada nas redes sociais e reproduzida pelo UOL.
Após sua primeira prisão durante a Operação Unha e Carne, Canella desistiu da disputa ao Senado e decidiu concorrer novamente à Assembleia Legislativa.
A relação política com a família Bolsonaro não significa envolvimento de Flávio, Rogéria ou outros aliados nos fatos investigados pela Polícia Federal.
Deputado eleito recebeu mais de 197 mil votos
Márcio Canella construiu sua trajetória política principalmente em Belford Roxo, município da Baixada Fluminense.
Antes de chegar à prefeitura da cidade, exerceu mandatos como vereador e deputado estadual.
Eleito prefeito em 2024, deixou o cargo em 2026 para disputar as eleições daquele ano.
Com 197.178 votos, conquistou uma vaga na Assembleia Legislativa e terminou a disputa como o segundo candidato a deputado estadual mais votado do Rio de Janeiro.
Canella também ocupa a presidência estadual do União Brasil, participando das articulações políticas da legenda no estado.
PF investiga possíveis relações com organizações criminosas
Além das suspeitas de lavagem de dinheiro, investigações anteriores da Polícia Federal e do Ministério Público examinam possíveis relações de Canella com integrantes de grupos criminosos que atuam na Baixada Fluminense.
Entre os pontos investigados estão nomeações para cargos públicos e contatos com pessoas apontadas pelas autoridades como integrantes de organizações criminosas.
Outra frente da apuração envolve suspeitas relacionadas à atuação de grupos armados e ao controle territorial em Belford Roxo.
Canella nega envolvimento com organizações criminosas.
As suspeitas fazem parte de procedimentos investigativos e dependem da produção de provas e da avaliação da Justiça.
Defesa afirma que não teve acesso à decisão judicial
Após a prisão desta quinta-feira, a assessoria de Márcio Canella informou ao UOL que ainda não havia tido acesso à íntegra da decisão judicial.
Até a divulgação das primeiras informações sobre a operação, não havia sido apresentado um posicionamento detalhado das defesas de todos os investigados.
A Polícia Civil do Rio de Janeiro afirmou que não compactua com desvios de conduta e que acompanha os desdobramentos da investigação por meio de sua corregedoria.
A corporação também informou que colabora com as autoridades responsáveis pelas apurações.
As prisões determinadas nesta fase da Operação Unha e Carne são preventivas e têm finalidade cautelar. Todos os investigados têm direito à presunção de inocência e à ampla defesa.
