Um tribunal do Quênia condenou, nesta sexta-feira (6), o líder religioso Paul Mackenzie a 200 anos de prisão pela morte de 190 crianças e um adulto. As vítimas faziam parte de uma seita que pregava a necessidade de abandonar a alimentação para alcançar o céu antes do suposto fim do mundo.
A sentença foi anunciada pela juíza Diana Kavedza, do Tribunal Superior de Mombasa, no litoral queniano. Mackenzie recebeu 100 anos de prisão pelos assassinatos relacionados à privação de alimentos e outros 100 anos por homicídios cometidos diretamente contra as vítimas.
O religioso liderava a chamada Good News International Church, uma organização que reunia seguidores em uma região isolada da floresta de Shakahola, no sudeste do país.
O caso ganhou repercussão internacional em abril de 2023, quando investigadores começaram a descobrir covas rasas com corpos de adultos e crianças. Desde então, centenas de vítimas foram encontradas, tornando o episódio um dos maiores casos de mortes associadas a uma seita religiosa na história recente.
Crianças eram obrigadas a passar fome até morrer
Segundo a acusação, Paul Mackenzie convenceu seus seguidores de que o mundo estava próximo do fim e que a morte por jejum permitiria um encontro com Jesus Cristo.
Famílias inteiras foram levadas para a floresta de Shakahola, onde passaram a viver afastadas de comunidades, escolas e serviços de saúde.
Os investigadores descobriram que crianças eram submetidas à privação prolongada de alimentos e água, muitas vezes sob vigilância de adultos ligados ao grupo.
De acordo com as conclusões apresentadas no julgamento, seguidores que tentavam interromper o jejum eram ameaçados, agredidos ou mantidos presos.
A Justiça identificou que 183 das 191 vítimas morreram em consequência da fome. Entre elas estavam 182 crianças e um adulto.
Outras oito crianças foram mortas por agressões, estrangulamento ou sufocamento.
A juíza destacou a vulnerabilidade das vítimas e a responsabilidade dos líderes que organizaram e impuseram as práticas.
Mais de 400 corpos foram encontrados na floresta
A investigação começou a ganhar dimensão nacional em 2023, depois que a polícia recebeu informações sobre pessoas desaparecidas e possíveis mortes em uma propriedade utilizada pelo grupo religioso.
As buscas levaram os agentes à floresta de Shakahola, nas proximidades da cidade costeira de Malindi.
No local, equipes policiais e especialistas forenses encontraram covas rasas, restos mortais em diferentes estágios de decomposição e evidências de desnutrição extrema.
Segundo a Comissão Nacional de Direitos Humanos do Quênia, 448 corpos foram recuperados na região.
Muitas vítimas estavam enterradas em locais improvisados, enquanto outras foram encontradas em condições que indicavam violência física.
A dimensão das descobertas surpreendeu as autoridades e provocou indignação no país.
O julgamento concluído agora tratou especificamente da morte de 191 pessoas. As demais mortes continuam relacionadas a outras investigações e processos.
Líder religioso negou ter obrigado seguidores a jejuar
Durante o processo, Paul Mackenzie negou ter forçado os integrantes da seita a abandonar a alimentação.
Sua defesa sustentou que ele não poderia ser responsabilizado pelas decisões individuais dos seguidores.
Entretanto, o tribunal rejeitou os argumentos e concluiu que o religioso exercia influência direta sobre as práticas que provocaram as mortes.
A Justiça considerou que Mackenzie utilizou sua posição de liderança para conquistar a confiança de pessoas vulneráveis e convencê-las a seguir orientações que colocavam suas vidas em risco.
Testemunhos apresentados durante o julgamento descreveram episódios de violência contra pessoas que tentavam abandonar o jejum.
A acusação também apontou que algumas vítimas foram impedidas de procurar alimentos ou receber ajuda.
A defesa informou que pretende recorrer da condenação.
Outros 28 integrantes da seita também foram condenados
Além de Mackenzie, outras 28 pessoas ligadas à organização religiosa foram consideradas culpadas por participação nos crimes.
As penas aplicadas aos demais condenados variam de 10 a 160 anos de prisão, de acordo com o grau de responsabilidade atribuído a cada um.
Entre os envolvidos estavam integrantes da estrutura de liderança e pessoas acusadas de ajudar a controlar os seguidores na floresta.
Segundo os investigadores, alguns participantes colaboraram com a imposição dos jejuns e com agressões contra aqueles que resistiam às ordens.
O tribunal entendeu que os crimes foram praticados de forma organizada e que a atuação dos envolvidos contribuiu diretamente para as mortes.
Pai perdeu seis filhos na tragédia
Entre os familiares das vítimas está Stephen Mwiti, de 48 anos, que perdeu seis filhos após eles serem levados para Shakahola.
Segundo seu relato à agência Reuters, sua esposa, também envolvida com a seita, levou as crianças para a floresta, onde elas morreram por falta de alimentação.
Mwiti afirmou que nenhuma condenação será capaz de trazer seus filhos de volta.
O caso também atingiu a própria família de Paul Mackenzie.
Dan Mackenzie, um dos filhos do religioso, contou que deixou a organização por não acreditar mais nas pregações do pai.
Ele afirmou ter perdido um irmão mais novo e amigos que permaneceram na comunidade.
Os depoimentos mostram como as consequências da tragédia atingiram diferentes gerações de famílias que participaram do grupo.
Número de vítimas pode chegar a 500
Embora a condenação anunciada nesta sexta-feira envolva 191 mortes, as investigações apontam que o número total de vítimas relacionadas às atividades de Mackenzie pode ser muito maior.
Além dos 448 corpos encontrados em Shakahola, o religioso é acusado em outro processo de envolvimento na morte de 52 pessoas descobertas em uma localidade situada a aproximadamente 30 quilômetros da floresta.
Essas investigações elevam para cerca de 500 o número de mortes suspeitas associadas ao grupo.
Mackenzie nega as acusações relacionadas ao segundo caso, que ainda depende de decisão judicial.
As autoridades continuam trabalhando na identificação de restos mortais e na localização de pessoas desaparecidas.
Tragédia expôs falhas das autoridades quenianas
A descoberta dos corpos provocou questionamentos sobre a atuação das instituições responsáveis pela segurança pública e pela fiscalização de organizações religiosas no Quênia.
Paul Mackenzie já havia chamado a atenção das autoridades antes de 2023.
Em 2017, a polícia realizou buscas em instalações ligadas ao religioso. Dois anos depois, sua igreja foi fechada na cidade de Malindi, e ele transferiu suas atividades para a região de Shakahola.
Apesar desses antecedentes, o grupo continuou funcionando até a descoberta das mortes.
Organizações de direitos humanos afirmam que sinais de alerta foram ignorados e defendem a responsabilização de agentes públicos que deixaram de agir diante das denúncias.
O presidente queniano William Ruto reconheceu, em 2023, que o Estado falhou ao não impedir a tragédia.
Desde então, o país discute mudanças nas regras de fiscalização de organizações religiosas e mecanismos para identificar práticas abusivas.
Condenação encerra uma etapa, mas investigações continuam
A sentença de 200 anos representa uma das decisões judiciais mais significativas relacionadas ao caso de Shakahola.
Entretanto, a responsabilização criminal ainda não está concluída.
Mackenzie responde a outras acusações, incluindo crimes relacionados a terrorismo, tortura e mortes que não fizeram parte deste julgamento.
Familiares continuam aguardando a identificação de vítimas e informações sobre parentes desaparecidos.
A tragédia também reacendeu o debate sobre os limites da liberdade religiosa quando práticas impostas por líderes colocam em risco a vida de seus seguidores, especialmente crianças.
Com a condenação, a Justiça queniana responsabilizou Paul Mackenzie e outros integrantes da organização pelas mortes analisadas no processo, enquanto novas investigações buscam esclarecer a extensão total dos crimes cometidos na floresta de Shakahola.
