Levantamento da ProPublica identificou 506 cidadãos dos Estados Unidos detidos desde janeiro de 2025, incluindo crianças e adolescentes. Departamento de Segurança Interna contesta acusações de detenções indevidas.
Uma investigação jornalística identificou 506 cidadãos americanos detidos por agentes federais de imigração nos Estados Unidos entre janeiro de 2025 e setembro de 2026. O levantamento, publicado pela organização independente ProPublica em 6 de outubro, reúne episódios ocorridos durante operações de fiscalização migratória realizadas no atual governo do presidente Donald Trump.
Os casos incluem pessoas abordadas por suspeitas relacionadas à situação migratória, cidadãos acusados de interferir em operações policiais e americanos que estavam registrando a atuação dos agentes.
A investigação foi elaborada com base em registros judiciais, reportagens locais, vídeos e outros documentos. Segundo a ProPublica, o número pode ser maior, já que nem todos os episódios puderam ser confirmados individualmente.
Crianças e adolescentes estão entre os detidos
Entre os 506 cidadãos identificados, pelo menos 70 eram crianças ou adolescentes. Aproximadamente 20 deles teriam sido algemados ou imobilizados com abraçadeiras plásticas durante as operações.
A investigação também encontrou pelo menos 63 cidadãos detidos enquanto registravam a atuação de agentes federais.
Em outros 36 casos, americanos permaneceram detidos por pelo menos um dia sem conseguir entrar em contato com familiares ou advogados.
Mais de 100 pessoas foram detidas após agentes questionarem sua cidadania americana. Segundo a ProPublica, quase todas as pessoas desse grupo eram não brancas.
Americano relata ter sido confundido com outra pessoa
Um dos episódios ocorreu em 20 de setembro, em Evanston, no estado de Illinois.
Segundo a investigação, agentes de imigração procuravam uma pessoa com características semelhantes às de um cidadão americano que acabou sendo abordado e detido.
O homem sofreu ferimentos durante a operação e precisou ser encaminhado a um hospital.
O Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos (DHS) apresentou outra versão, afirmando que ele não teria obedecido às ordens legais dos agentes e que foi mantido sob custódia até ser identificado.
O caso integra a relação de ocorrências documentadas pela ProPublica.
Cidadão americano foi detido três vezes no Alabama
Outro caso destacado pela investigação envolve Leonardo Garcia Venegas, cidadão americano que trabalha na construção civil no Alabama.
Ele relatou ter sido detido três vezes por autoridades migratórias, mesmo depois de informar sua cidadania e apresentar documentos de identificação.
Em uma das abordagens, agentes o retiraram de um veículo e o imobilizaram.
Segundo reportagem publicada pela ProPublica em maio de 2026, Garcia Venegas entrou com uma ação judicial contra o governo federal após os episódios.
O DHS contestou a caracterização de uma das abordagens como prisão e afirmou que os agentes realizaram uma verificação de identidade antes de liberá-lo.
Governo americano contesta irregularidades
O Departamento de Segurança Interna rejeitou a alegação de que agentes estejam prendendo cidadãos americanos por engano.
Em manifestação à ProPublica, o órgão afirmou que as operações de fiscalização são direcionadas a alvos específicos e que os agentes realizam verificações antes de efetuar prisões.
O departamento também argumentou que pessoas que obstruem a atuação das autoridades podem ser responsabilizadas criminalmente, independentemente da cidadania.
A ProPublica, por sua vez, informou ter identificado mais de 300 cidadãos detidos sob alegações de agressão ou obstrução de agentes federais. Menos da metade desses casos resultou em acusações na Justiça federal, segundo o levantamento, e parte dos processos foi posteriormente arquivada ou rejeitada.
O que a lei americana estabelece?
A cidadania dos Estados Unidos não impede uma pessoa de ser detida por suspeita fundamentada de envolvimento em um crime.
Entretanto, cidadãos americanos não podem ser deportados simplesmente por questões migratórias, e qualquer detenção deve respeitar as garantias previstas na Constituição.
A Quarta Emenda protege contra buscas e apreensões consideradas injustificadas, enquanto a Quinta Emenda estabelece garantias relacionadas ao devido processo legal.
A legalidade de cada abordagem depende das circunstâncias específicas, incluindo a justificativa apresentada pelos agentes e os procedimentos adotados.
Levantamento pode não representar o número total de casos
A ProPublica esclareceu que os 506 casos representam apenas os episódios que a equipe conseguiu documentar e confirmar.
O levantamento utiliza uma definição ampla de detenção, que inclui situações em que uma pessoa foi impedida de sair livremente, mesmo sem uma prisão formal.
Por isso, o número não significa que 506 americanos tenham sido presos por infrações migratórias nem que todas as detenções tenham sido consideradas ilegais.
A investigação amplia o debate sobre fiscalização migratória, direitos constitucionais e procedimentos adotados por agentes federais durante operações em diferentes estados americanos.
