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Homem permanece detido pelo ICE há quase dez meses apesar de documentos que indicam cidadania americana
Estados Unidos | Imigração

Homem permanece detido pelo ICE há quase dez meses apesar de documentos que indicam cidadania americana

Caso levanta questionamentos sobre os procedimentos de identificação de cidadãos dos Estados Unidos em centros de detenção migratória. Registros de nascimento apresentados à imprensa indicam que o homem nasceu em território americano, enquanto sua situação continua sob disputa.


A situação de um homem mantido sob custódia do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE) há quase dez meses ganhou repercussão após a divulgação de documentos que indicam que ele nasceu em território americano e, portanto, pode ser cidadão dos Estados Unidos.

O caso levantou questionamentos sobre a atuação das autoridades migratórias, especialmente diante da possibilidade de uma pessoa com cidadania americana permanecer detida por um período prolongado e enfrentar procedimentos de deportação.

De acordo com as informações apresentadas sobre o caso, registros documentais obtidos durante uma investigação jornalística apontam para o nascimento do homem nos Estados Unidos. Entretanto, a situação ainda exige esclarecimentos sobre a autenticidade dos documentos, a identidade do detido e os fundamentos utilizados pelas autoridades para mantê-lo sob custódia.

A cidadania americana é um elemento central da controvérsia. Em regra, pessoas nascidas nos Estados Unidos são cidadãs americanas desde o nascimento, conforme a 14ª Emenda da Constituição, ressalvadas exceções específicas previstas na legislação.

Se a cidadania for confirmada, o homem não poderá ser deportado como estrangeiro.

Quem é o homem detido pelo ICE

O homem foi identificado como Phillip James, de 39 anos, também conhecido pelo nome Felibi Siagha-Coke. Ele está detido desde 5 de janeiro de 2026, após comparecer a uma audiência em um tribunal de imigração em Nova York.

Segundo uma investigação publicada pela agência Associated Press, James apresenta um histórico de esquizofrenia paranoide, condição que, de acordo com os registros analisados, está relacionada a declarações contraditórias que ele fez sobre sua própria identidade e nacionalidade.

Atualmente, ele está no Miami Correctional Facility, uma prisão de segurança máxima no estado de Indiana que passou a abrigar detidos do ICE. Apesar do nome, a unidade não fica na cidade de Miami, na Flórida.

Certidão de nascimento e registros judiciais apontam origem na Flórida

A investigação da Associated Press identificou diferentes documentos que sustentam a versão apresentada pela mãe e pelos advogados de Phillip James.

Uma certidão de nascimento indica que ele nasceu em 1987, no Condado de Orange, na Flórida, filho de uma cidadã americana e de um cidadão jamaicano.

A agência também obteve independentemente um documento judicial de 1988, relacionado ao reconhecimento de paternidade, cujas informações coincidem com a certidão de nascimento.

O registro apresenta a mesma data de nascimento, os nomes dos pais e informações sobre a residência da família.

Essas evidências reforçam a alegação da defesa de que James é cidadão americano por nascimento.

Homem teve passaporte americano durante 15 anos

Outro elemento relevante é o histórico de documentos de viagem de Phillip James.

Ele recebeu um passaporte dos Estados Unidos em 2008, após apresentar sua certidão de nascimento.

Em 2023, depois de uma mudança legal de nome, obteve um novo passaporte americano.

Entretanto, a situação mudou quando James começou a apresentar solicitações de cidadania e proteção migratória, afirmando que havia nascido na Jamaica.

As declarações entravam em contradição com os documentos anteriores.

Posteriormente, o governo americano revogou seu passaporte e negou o reconhecimento de cidadania solicitado nesses procedimentos.

O Departamento de Segurança Interna (DHS) sustenta que a certidão utilizada para obter o passaporte original era fraudulenta, mas não apresentou à Associated Press provas que sustentassem essa alegação.

Declarações contraditórias complicaram o caso

Segundo os documentos judiciais examinados pela Associated Press, James afirmou em diferentes ocasiões que nasceu na Jamaica e que teria entrado irregularmente nos Estados Unidos em 2009.

Em outros momentos, apresentou versões distintas sobre sua origem, incluindo uma alegação de cidadania libanesa.

A defesa argumenta que essas declarações precisam ser analisadas considerando seu histórico de saúde mental.

Especialistas consultados pela agência questionaram a utilização dessas afirmações como principal fundamento para contestar documentos oficiais de nascimento e passaportes anteriormente emitidos pelo próprio governo americano.

As autoridades jamaicanas, por sua vez, informaram aos advogados que não localizaram registros de nascimento ou cidadania correspondentes à identidade atribuída a James.

Justiça autorizou deportação para a Jamaica

Em abril, um juiz de imigração determinou a deportação de Phillip James para a Jamaica.

A decisão foi tomada após procedimentos nos quais o homem inicialmente representou a si próprio, sem assistência de um advogado.

Posteriormente, ele passou a ser representado pela organização Bronx Defenders, que presta assistência jurídica a pessoas de baixa renda em Nova York.

Os advogados apresentaram uma ação à Justiça federal em 19 de agosto, solicitando sua libertação e contestando a legalidade da detenção.

A defesa também recorreu da ordem de deportação ao Conselho de Apelações de Imigração dos Estados Unidos.

O juiz federal Damon Leichty deverá analisar o pedido de libertação.

Até a publicação da investigação, não havia decisão definitiva reconhecendo a cidadania de James ou determinando sua soltura.

Governo americano contesta cidadania

O Departamento de Segurança Interna afirmou à Associated Press que Phillip James não é cidadão americano e defendeu a atuação das autoridades migratórias.

Em documentos apresentados à Justiça, representantes do governo sustentaram que ele nasceu na Jamaica e possui cidadania libanesa.

A posição oficial contrasta com a certidão de nascimento da Flórida, os registros judiciais de 1988 e o histórico de passaportes americanos.

O governo também argumenta que a questão da nacionalidade deve ser resolvida nos procedimentos de imigração.

Até o momento, as autoridades não reconheceram qualquer erro na detenção.

Cidadãos americanos não podem ser deportados como estrangeiros

A legislação americana não autoriza o ICE a deportar cidadãos dos Estados Unidos como se fossem estrangeiros sujeitos à remoção migratória.

Entretanto, erros de identificação e disputas sobre documentos podem resultar em detenções indevidas enquanto a nacionalidade é investigada.

Especialistas ouvidos pela Associated Press afirmaram que casos de cidadãos americanos detidos por autoridades migratórias já foram registrados, embora uma detenção de quase dez meses seja incomum.

A ex-integrante da direção do ICE Deborah Fleischaker avaliou que as evidências documentais de cidadania apresentadas no caso de James são significativas.

O episódio também levanta questionamentos sobre a maneira como o sistema migratório trata pessoas com transtornos mentais ou dificuldades para apresentar informações consistentes sobre sua identidade.

Caso aguarda decisão judicial

Phillip James permanece sob custódia enquanto seus advogados tentam obter sua libertação e reverter a ordem de deportação.

A análise judicial deverá considerar os documentos apresentados pela defesa, as alegações do governo federal e as circunstâncias que levaram à contestação de sua cidadania.

O caso ganhou repercussão nacional após a Associated Press reunir registros públicos, documentos judiciais e informações da família que apontam para seu nascimento nos Estados Unidos.

A principal questão ainda sem resposta é por que as autoridades migratórias continuam buscando sua deportação diante de documentos americanos que sustentam sua cidadania.