BRASIL | TRABALHO E SOCIEDADE | 15 DE OUTUBRO DE 2026
Aprovação da proposta no Senado promete duas folgas semanais e redução da jornada sem corte salarial. Para mulheres que criam os filhos sozinhas, a mudança representa a possibilidade de recuperar momentos em família.
A aprovação do fim da escala de trabalho 6x1 pelo Senado brasileiro, na quarta-feira (14), trouxe uma perspectiva de mudança para milhões de trabalhadores. Para mães que criam os filhos sozinhas, entretanto, a decisão representa algo que vai além de uma folga adicional: a possibilidade de participar mais da infância dos próprios filhos.
Em reportagem publicada pela BBC News Brasil e reproduzida pela Folha de S.Paulo, mulheres que passaram décadas conciliando emprego, deslocamentos e responsabilidades familiares relataram o impacto emocional de trabalhar seis dias por semana.
Entre elas está Luciana de Almeida, de 36 anos, operadora de caixa de supermercado no Rio de Janeiro e mãe solo de três filhos.
Sua rotina começa às 5h da manhã e termina perto das 20h. Entre preparar as crianças, levá-las à escola, enfrentar o transporte público e cumprir o expediente, sobra pouco tempo para acompanhar o crescimento dos filhos.
A aprovação da proposta, por 75 votos favoráveis e apenas um contrário, abriu a possibilidade de que essa realidade comece a mudar.
Mãe de três filhos passa até três horas e meia por dia no transporte
Luciana mora em Realengo, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, e trabalha em um supermercado em Campo Grande, a aproximadamente 20 quilômetros de distância.
Todas as manhãs, ela organiza a rotina das duas filhas menores, de quatro anos e de um ano e oito meses, antes de sair para trabalhar.
O deslocamento até o supermercado leva cerca de uma hora e meia. Na volta, são aproximadamente duas horas até chegar em casa.
Durante sua ausência, o filho mais velho, de 15 anos, ajuda a cuidar das irmãs.
Aos 36 anos, Luciana já acumula quase duas décadas de trabalho no comércio sob a escala 6x1.
No único dia de folga, precisa cuidar da casa e, em algumas ocasiões, realizar faxinas para complementar a renda familiar.
Segundo relatou à BBC News Brasil, o desgaste físico e mental é constante, e nem mesmo o descanso semanal é suficiente para recuperar as energias.
“Estava vendo a vida dos meus filhos passar”
A percepção de que estava perdendo momentos importantes da infância das crianças ficou mais evidente durante as férias deste ano.
Ao passar mais tempo em casa, Luciana percebeu quantas atividades escolares e celebrações familiares havia deixado de acompanhar por causa do trabalho.
“Estou vendo a vida dos meus filhos passar, não consigo ir em festa de dia das mães, junina, nada”, contou.
Para ela, a possibilidade de ter duas folgas semanais significa mais do que descansar.
A mudança permitiria acompanhar atividades das filhas, organizar compromissos pessoais e reservar momentos de lazer com a família.
Luciana também espera conseguir conciliar melhor suas responsabilidades domésticas com a necessidade de continuar trabalhando para sustentar os três filhos.
Após 20 anos na escala 6x1, outra mãe lamenta momentos que não voltam
Em São Paulo, Fabiane da Conceição, de 50 anos, também recebeu a aprovação da proposta com alívio.
Ela passou aproximadamente 20 anos trabalhando seis dias por semana enquanto criava dois filhos sozinha.
Há cerca de um mês, conseguiu um novo emprego com jornada de cinco dias de trabalho e dois de descanso.
Apesar da mudança, Fabiane afirma que ainda carrega lembranças dolorosas dos momentos que não conseguiu acompanhar durante a infância dos filhos.
“Sinto hoje que perdi a maior parte das coisas que enxergo importante na criação dos filhos. Não os vi aprender a andar, não os levei ao primeiro dia da escola”, relatou à BBC News Brasil.
A gerente comercial trabalhou em diferentes setores, incluindo comércio e indústria, e enfrentou longos deslocamentos pela cidade.
Sem uma rede de apoio familiar, precisou contratar pessoas para buscar os filhos na escola e permanecer com eles até sua chegada em casa.
Em determinado período, recebia R$ 400 por mês e destinava R$ 180 ao pagamento desses cuidados.
A necessidade de garantir o sustento da família, segundo ela, tornou impossível escolher uma rotina profissional com mais tempo livre.
Mulheres mais velhas comemoram mudança para as novas gerações
Embora Fabiane já tenha deixado a escala 6x1, ela afirma que a aprovação da proposta representa um alívio ao pensar nas mulheres mais jovens.
A experiência de criar filhos sem apoio e trabalhar praticamente todos os dias deixou consequências que, segundo ela, ainda são sentidas na relação familiar.
A gerente comercial acredita que a redução da jornada poderá permitir que outras mães tenham mais oportunidades de acompanhar a criação dos filhos sem enfrentar o mesmo nível de esgotamento.
Para mulheres responsáveis sozinhas pelo sustento da casa, o tempo de descanso frequentemente precisa ser dividido entre cuidados com as crianças, tarefas domésticas e atividades para complementar a renda.
Por isso, a ampliação das folgas é vista por essas trabalhadoras como uma possibilidade de reorganizar a rotina familiar.
O que muda com o fim da escala 6x1?
A Proposta de Emenda à Constituição aprovada pelo Senado estabelece o encerramento da jornada tradicional de seis dias de trabalho para apenas um de descanso.
A mudança será implementada gradualmente, sem redução dos salários.
A primeira etapa começará 60 dias após a promulgação da emenda constitucional, quando a jornada máxima semanal passará de 44 para 42 horas.
Nessa fase, os trabalhadores passarão a ter direito a duas folgas remuneradas por semana.
Após o período de transição previsto na proposta, a jornada máxima será reduzida para 40 horas semanais.
A distribuição das folgas poderá observar regras específicas e negociações coletivas, respeitados os limites estabelecidos pela nova legislação.
A mudança ainda não entrou em vigor. Depois da aprovação no Senado, o texto precisa ser promulgado pelo Congresso Nacional e publicado oficialmente.
Quase 15 milhões de trabalhadores poderão ser beneficiados
Segundo dados do Ministério do Trabalho, aproximadamente 14,8 milhões de brasileiros estavam submetidos à escala 6x1 no final de 2025.
O número representa pouco mais de um terço dos trabalhadores formais do país.
A proposta foi aprovada no Senado por ampla maioria, com 75 votos favoráveis e um contrário, do senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS).
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que defendeu a medida, comemorou a aprovação. O senador Flávio Bolsonaro (PL), adversário de Lula na disputa presidencial, também votou favoravelmente, embora anteriormente tivesse criticado o momento da votação.
Representantes de setores empresariais, por sua vez, manifestaram preocupação com o aumento dos custos operacionais e a necessidade de contratação de funcionários para manter o funcionamento dos estabelecimentos.
Esses impactos deverão fazer parte das discussões sobre a adaptação das empresas às novas regras.
Mais tempo para viver fora do trabalho
Para Luciana e Fabiane, a discussão sobre a jornada de trabalho não se resume a números ou regras trabalhistas.
As duas representam histórias de mulheres que precisaram abrir mão de momentos familiares para garantir alimentação, moradia e educação aos filhos.
Enquanto Luciana espera aproveitar as novas folgas para acompanhar o crescimento das crianças, Fabiane comemora a possibilidade de que outras mães não precisem enfrentar as mesmas dificuldades.
Com a aprovação da proposta, o Brasil se aproxima de uma mudança na organização da jornada de milhões de trabalhadores.
Para essas mães, a expectativa é que o tempo adicional de descanso se transforme em algo que o dinheiro não consegue recuperar: mais presença na vida dos filhos.
