Buscar

De atendente de padaria a futura médica: jovem de escola pública conquista vaga na Unicamp com aulas gratuitas
Brasil | Educação

De atendente de padaria a futura médica: jovem de escola pública conquista vaga na Unicamp com aulas gratuitas

Aos 18 anos, Kelly Cristina Almeida Souza passou em Medicina na primeira tentativa, sem pagar cursinho. Com o incentivo da mãe, superou dificuldades financeiras, ansiedade e expectativas familiares que colocavam o casamento acima dos estudos.


A história de Kelly Cristina Almeida Souza, de 23 anos, mostra como a educação pode transformar o futuro de uma família. Ex-aluna de escola pública, a jovem conquistou uma vaga no curso de Medicina da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) aos 18 anos, estudando por conta própria e utilizando videoaulas gratuitas disponíveis na internet.

Agora, cinco anos depois da aprovação, Kelly se prepara para concluir a graduação em novembro de 2026 e realizar o sonho de se tornar médica.

O caminho até a universidade, entretanto, foi marcado por dificuldades financeiras, responsabilidades familiares e pela pressão de parentes que acreditavam que uma mulher deveria priorizar o casamento em vez da formação acadêmica.

O apoio decisivo veio da mãe, uma técnica de enfermagem aposentada que sustentava a família com aproximadamente um salário mínimo e fez questão de incentivar a filha a continuar estudando.

Jovem trabalhava em padaria antes de decidir cursar Medicina

Aos 16 anos, Kelly trabalhava como operadora de caixa em uma padaria para juntar dinheiro e comprar um computador.

Na época, a possibilidade de estudar Medicina ainda não fazia parte de seus planos.

A mudança começou durante o segundo ano do ensino médio, quando uma professora de língua portuguesa a incentivou a participar do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

Kelly realizou a prova para conhecer o exame e avaliar seus conhecimentos. O resultado surpreendeu: ela conquistou 920 pontos na redação.

A pontuação chamou a atenção da professora, que passou a incentivar a estudante a considerar uma carreira na área médica.

A jovem também enxergou na profissão uma oportunidade de melhorar as condições financeiras da família.

Sua mãe era responsável pelo sustento dos quatro filhos, e a renda limitada tornava difícil imaginar o pagamento de um cursinho preparatório particular.

Mãe foi até a padaria para garantir que a filha pudesse estudar

Quando Kelly decidiu se preparar para o vestibular, precisou abrir mão do emprego.

Foi nesse momento que a mãe tomou uma atitude que a jovem nunca esqueceu.

Ela foi pessoalmente à padaria para comunicar que a filha deixaria de trabalhar e passaria a se dedicar aos estudos.

A decisão representou um esforço importante para uma família que já enfrentava dificuldades financeiras.

O incentivo também ajudou Kelly a enfrentar as expectativas de alguns parentes.

Segundo a estudante, parte de sua família, marcada por valores religiosos tradicionais, acreditava que as mulheres deveriam se casar em vez de investir em uma formação universitária.

Embora também fosse religiosa, a mãe apoiou a escolha da filha e demonstrou confiança em sua capacidade de conquistar uma vaga na universidade.

Sem dinheiro para cursinho, estudante criou rotina de oito horas diárias

Kelly cursou o ensino médio na Escola Técnica Estadual (Etec) de Botujuru, em Campo Limpo Paulista, no interior de São Paulo.

Sem recursos para pagar um curso preparatório, organizou sozinha seu planejamento de estudos durante o terceiro ano do ensino médio, em 2020.

A principal ferramenta foi a internet.

Ela utilizava videoaulas gratuitas no YouTube, materiais disponibilizados por cursinhos durante a pandemia e provas de vestibulares anteriores.

A rotina chegava a aproximadamente oito horas de estudo por dia, de segunda a sexta-feira.

Pela manhã, Kelly priorizava revisões e exercícios. À tarde, estudava novos conteúdos e procurava avançar em cerca de três assuntos diariamente.

Aos sábados, resolvia simulados e provas antigas. Os domingos eram reservados ao descanso.

Além da preparação para o vestibular, a jovem ajudava nas tarefas domésticas e cuidava dos três irmãos mais novos.

Ansiedade quase comprometeu o sonho de entrar na universidade

Mesmo com uma rotina organizada, Kelly enfrentou momentos de insegurança.

Os resultados dos primeiros simulados estavam abaixo das notas necessárias para ingressar em Medicina, um dos cursos mais concorridos do país.

A situação provocava ansiedade e fazia a estudante questionar suas possibilidades de aprovação.

Durante a pandemia, ela começou a praticar yoga e meditação para controlar a tensão emocional.

Na semana anterior à primeira fase do vestibular da Unicamp, a ansiedade aumentou e Kelly chegou a duvidar de que conseguiria passar.

Mais uma vez, a mãe teve papel fundamental.

Para ajudá-la a recuperar a confiança, levou a filha para conhecer pessoalmente o campus da universidade.

A visita fortaleceu a motivação da estudante nos dias que antecederam a prova.

Aprovação veio na primeira chamada da Unicamp

Em 2021, aos 18 anos, Kelly recebeu a notícia que mudaria sua vida: havia sido aprovada em Medicina na Unicamp.

Ela conquistou a vaga na primeira chamada, ocupando a 371ª posição na classificação informada pela universidade.

A estudante ingressou por uma modalidade de reserva de vagas destinada a alunos de escolas públicas e candidatos autodeclarados pardos.

Kelly também havia participado dos vestibulares da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Estadual Paulista (Unesp), chegando à segunda fase das duas instituições.

Entretanto, a divulgação antecipada do resultado da Unicamp fez com que ela optasse pela universidade de Campinas.

A jovem registrou em vídeo o momento em que contou à mãe sobre a aprovação.

Ao receber a notícia, a mãe ficou surpresa e começou a telefonar para familiares e conhecidos para compartilhar a conquista.

Vida universitária trouxe novos desafios

A aprovação foi apenas o começo de uma nova etapa.

Kelly precisou deixar a casa da família e se mudar para Campinas, onde fica a Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp.

Até então, nunca havia morado sozinha e sequer tinha tido um quarto individual, já que dividia o espaço com os irmãos.

Para conseguir permanecer na universidade, contou inicialmente com uma bolsa de mérito destinada a estudantes cotistas.

Posteriormente, também passou a receber auxílio estudantil, fundamental para custear as despesas durante a graduação.

A experiência representou uma transformação não apenas acadêmica, mas também pessoal, marcada pela conquista de independência e pela adaptação a uma nova realidade.

Aos 23 anos, Kelly se prepara para a formatura e sonha com a oftalmologia

Hoje, aos 23 anos, Kelly está na reta final da graduação em Medicina e se prepara para a colação de grau prevista para novembro de 2026.

Seu próximo objetivo é seguir carreira na área de oftalmologia, especialidade médica dedicada à saúde dos olhos e ao tratamento de doenças da visão.

A jovem também espera que sua trajetória incentive outros estudantes de escolas públicas a acreditar na possibilidade de ingressar em universidades concorridas.

Sua história ganha destaque às vésperas da primeira fase do Vestibular 2027 da Unicamp, marcada para domingo, 18 de outubro.

Neste processo seletivo, Medicina aparece como o curso mais disputado da universidade, com aproximadamente 204 candidatos por vaga.

Para Kelly, a falta de recursos financeiros e as dificuldades enfrentadas durante a preparação não devem ser motivos para abandonar um objetivo.

A futura médica destaca a importância das políticas de acesso à educação, das oportunidades oferecidas aos estudantes de baixa renda e do apoio de professores e familiares.

Cinco anos depois de deixar o emprego na padaria para estudar, Kelly está prestes a realizar o sonho que sua mãe ajudou a tornar possível: receber o diploma de médica.