Buscar

Crise política no Paraguai se agrava, e partido governista retira apoio a Peña e defende impeachment
Paraguai | Política

Crise política no Paraguai se agrava, e partido governista retira apoio a Peña e defende impeachment

Congresso inicia discussão sobre afastamento do presidente Santiago Peña após colapso do banco digital Ueno, que deixou milhões de clientes sem acesso ao dinheiro. Partido Colorado, responsável por sustentar o governo, anunciou apoio ao processo.


O Paraguai enfrenta uma grave crise política e financeira que ameaça a permanência do presidente Santiago Peña no poder. Nesta quinta-feira (5), o Congresso iniciou a discussão de um pedido de impeachment contra o mandatário, após o colapso do banco digital Ueno, instituição financeira que mantinha ligações empresariais anteriores com o presidente.

A situação se agravou depois que o Partido Colorado, legenda de Peña e principal força de sustentação do governo, anunciou que apoiará o processo de afastamento. A decisão representa uma mudança significativa no cenário político paraguaio e aumenta a pressão sobre o presidente.

O pedido de impeachment foi apresentado inicialmente por 35 deputados, que acusam Peña de conflito de interesses, suposto uso irregular de recursos previdenciários e falhas na fiscalização do sistema financeiro.

A crise começou após a intervenção do Banco Central do Paraguai no Ueno Bank, uma das maiores instituições financeiras digitais do país, que possui aproximadamente 3 milhões de clientes. A suspensão das operações deixou correntistas sem acesso às contas, provocando filas, protestos e preocupação com a segurança dos depósitos.

Partido do presidente anuncia apoio ao impeachment

A situação política de Santiago Peña sofreu uma reviravolta quando o ex-presidente Horacio Cartes, atual líder do Partido Colorado e uma das figuras mais influentes da política paraguaia, anunciou publicamente o apoio ao julgamento político do presidente.

Em comunicado divulgado nas redes sociais, Cartes afirmou que a legenda decidiu apoiar o processo para restabelecer a normalidade institucional do país.

O posicionamento representa um rompimento importante entre Peña e a liderança partidária que ajudou a viabilizar sua eleição presidencial em 2023.

Segundo informações divulgadas pela imprensa paraguaia, os 36 deputados do Partido Colorado deverão apoiar o pedido de impeachment, somando-se aos parlamentares da oposição.

Com essa mudança, o processo ganhou força suficiente para avançar na Câmara dos Deputados, caso o apoio anunciado se confirme na votação.

O presidente do Congresso, Basilio Núñez, também retirou seu apoio político a Peña, ampliando o isolamento do chefe do Executivo.

Fechamento do Ueno Bank deixa milhões de clientes sem acesso ao dinheiro

O centro da crise é o Ueno Bank, instituição financeira digital que cresceu rapidamente nos últimos anos e conquistou uma parcela expressiva da população paraguaia.

O banco contava com aproximadamente 3 milhões de clientes e administrava cerca de US$ 850 milhões em depósitos de instituições públicas, incluindo recursos ligados à previdência social.

Na terça-feira (3), o Banco Central determinou a intervenção na instituição após identificar problemas graves de solvência e inconsistências financeiras.

O índice de solvência do banco havia caído para 5,56%, muito abaixo do mínimo regulatório de 12%.

Entre as irregularidades investigadas estão empréstimos concedidos a empresas ligadas ao grupo controlador, falhas na avaliação de crédito e registros contábeis questionados pelas autoridades.

Com a suspensão das operações, clientes ficaram impossibilitados de movimentar suas contas normalmente, gerando preocupação entre famílias, aposentados e trabalhadores que utilizavam o banco para receber salários e guardar economias.

Presidente já foi acionista do grupo controlador do banco

A ligação anterior de Santiago Peña com o Ueno Bank é um dos principais pontos levantados pelos parlamentares que defendem seu afastamento.

O presidente foi acionista do Grupo Vázquez, controlador da instituição financeira, até março de 2025.

A oposição questiona se essa relação empresarial teria influenciado decisões do governo e de órgãos reguladores responsáveis pela fiscalização bancária.

Entre as acusações apresentadas estão supostos conflitos de interesse, favorecimento regulatório e utilização irregular de recursos públicos e previdenciários.

Essas suspeitas ainda dependem de investigação e comprovação. A participação anterior de Peña no grupo empresarial, por si só, não demonstra que o presidente tenha cometido irregularidades.

Outro ponto de questionamento envolve a nomeação de Carlos Carvallo para a presidência do Banco Central. Carvallo havia ocupado anteriormente um cargo de direção na instituição financeira.

Com o agravamento da crise, ele deixou o comando da autoridade monetária paraguaia.

Oito executivos são detidos e Justiça investiga irregularidades

As investigações sobre o Ueno Bank também avançaram na esfera criminal.

O Ministério Público determinou a detenção de oito dirigentes atuais e antigos da instituição, incluindo o presidente-executivo Miguel Vázquez.

Ao todo, 27 pessoas ligadas ao banco foram formalmente acusadas no âmbito das investigações, e a Justiça determinou o bloqueio de bens relacionados ao caso.

As autoridades investigam possíveis irregularidades na administração financeira, na concessão de empréstimos e no cumprimento das exigências legais do sistema bancário.

O colapso também provocou manifestações nas ruas de Assunção, capital do Paraguai.

Clientes prejudicados realizaram protestos exigindo a devolução de seus recursos e a responsabilização dos envolvidos.

Governo tenta garantir devolução do dinheiro aos clientes

Diante da pressão popular, Santiago Peña anunciou medidas para acelerar a devolução dos depósitos aos clientes afetados.

O presidente sancionou uma legislação emergencial destinada a facilitar o acesso aos recursos garantidos pelo sistema de proteção bancária.

Em manifestações públicas, Peña afirmou que a prioridade deve ser proteger os depositantes e assegurar que eventuais responsáveis por irregularidades respondam perante a Justiça.

O governo também procurou transmitir confiança no restante do sistema financeiro paraguaio.

A Associação de Bancos do Paraguai informou que outras instituições continuam funcionando normalmente e estão recebendo clientes interessados em transferir seus recursos.

O Banco Central, por sua vez, sustenta que a situação do Ueno Bank não representa necessariamente uma crise generalizada do setor bancário.

Apesar das medidas, a incerteza sobre a recuperação integral dos depósitos continua provocando preocupação entre os clientes afetados.

Como funciona o impeachment no Paraguai?

O processo de impeachment segue regras estabelecidas pela Constituição paraguaia.

Para que a acusação avance na Câmara dos Deputados, é necessária a aprovação de dois terços dos parlamentares.

Como a Câmara possui 80 integrantes, são necessários pelo menos 53 votos, caso todos participem da votação.

Se a acusação for aprovada, o processo seguirá para o Senado, responsável pelo julgamento político.

Na Câmara Alta, são necessários 30 votos entre os 45 senadores para determinar a destituição do presidente.

O pedido também envolve o vice-presidente Pedro Alliana, cuja situação deverá ser analisada separadamente.

O anúncio de apoio do Partido Colorado representa uma mudança decisiva porque a oposição, sozinha, não possuía votos suficientes para conduzir o processo.

Até a atualização desta reportagem, a abertura da discussão parlamentar não significava que Peña já tivesse sido afastado do cargo.

Crise ameaça estabilidade política e econômica do Paraguai

Santiago Peña assumiu a Presidência em agosto de 2023, com mandato previsto até 2028.

Economista de formação, ele chegou ao poder com o apoio do Partido Colorado, legenda que exerce forte influência na política paraguaia há décadas.

O rompimento com setores importantes de sua própria base representa uma ameaça à continuidade do governo.

Além das consequências políticas, o escândalo bancário também levanta preocupações sobre a confiança de investidores e consumidores no sistema financeiro do Paraguai.

A crise ocorre em um momento em que o país procura ampliar investimentos estrangeiros e fortalecer sua imagem de estabilidade econômica na América do Sul.

Com manifestações nas ruas, investigações criminais e o Congresso discutindo o impeachment, o governo de Santiago Peña enfrenta um de seus momentos mais delicados.

A decisão dos parlamentares será determinante para definir se o presidente conseguirá permanecer no cargo ou se o Paraguai enfrentará uma mudança no comando do governo antes do término do mandato.